AS REVOLTAS E MANIFESTAÇÕES URBANAS DURANTE A REPÚBLICA OLIGÁRQUICA

AS REVOLTAS E MANIFESTAÇÕES URBANAS DURANTE A REPÚBLICA OLIGÁRQUICA

                Assim como na área rural, nas zonas urbanas também ocorreram manifestações e revoltas contra a estrutura política estabelecida no Brasil entre o final do século XIX e inicio do século XX. Na sua grande maioria essas manifestações e revolta não obtiveram aquilo que nós como sociedade consideramos uma vitória. Mas temos que considerar o contexto histórico e os desdobramentos provocados por elas, que no decorrer do tempo alicerçaram, mesmo que incipiente uma forma de reagir à exploração imposta e contribuíram para o enfraquecimento da estrutura e as transformações que o Brasil passaria a partir da década de 30 com a queda do domínio oligárquico sobre as decisões estruturais no país. Foi e ainda é um processo, que aos poucos, apesar de todo o cenário negativo foi moldando a cidadania no Brasil, mesmo que saibamos que ela ainda é carente, mas sem esses acontecimentos, ela seria mais fraca ainda.

                No início do século XX, as cidades brasileiras, de modo geral, eram pequenas e acanhadas. Não contavam com sistemas eficientes de esgoto, de abastecimento de água, as ruas não tinham calçamento ou iluminação elétrica e o transporte público era quase que inexistente. Ou seja, na concepção da palavra cidade que temos hoje, as cidades brasileiras do inicio do século XX estavam muito longe, ainda mais se comparadas com as cidades europeias ou da América do Norte e, até mesmo com algumas cidades da América do Sul, como Buenos Aires e Montevidéu.

                Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência do Brasil e um de seus principais objetivos foi implementar um programa de modernização da capital, na época, a cidade do Rio de Janeiro. Essa modernização passava por reformas urbanas e sanitárias, que tinha como objetivo deixar a cidade mais limpa e moderna. O projeto de modernização de Rodrigues Alves previa a destruição dos cortiços, ampliação das avenidas e construção de novos prédios. Esse processo previa também a expulsão de comunidades pobres das regiões centrais da cidade. Centenas de pequenas casas e cortiços foram derrubadas, fato conhecido como “bota abaixo”. Os pobres desalojados de suas moradias mudaram-se para os morros, construindo moradias improvisadas com o material de demolição obtido no centro da cidade. Essas moradias improvisadas, localizadas nos morros do Rio de Janeiro, deram origem às favelas, que desde então cresceram continuamente. Juntamente com a demolição, a expulsão dos pobres do centro, o governo instituiu a vacinação obrigatória contra a varíola a pedido do sanitarista Oswaldo Cruz que havia sido contratado justamente para elaborar a reforma sanitarista. Essa obrigatoriedade vai ser o estopim para o fato que conhecemos como a Revolta da Vacina, que ocorreu entre 10 a 16 de novembro de 1904, que devido à desinformação gerou atos de vandalismo com bondes virados, trilhos arrancados, tiroteios, pancadarias generalizadas, prisões (945 prisões foram efetuadas, com 461 pessoas condenadas e deportadas para o Acre), que levaram o governo a suspender a obrigatoriedade da vacina. Entretanto a Revolta da Vacina, como ficou conhecida, não é somente uma revolta contra a vacina, ela é uma revolta contra a reforma urbanística excludente, que excluiu a população pobre do centro da cidade, onde a mesma ganhava o seu sustento. Além disso, somente os proprietários foram indenizados, a população mais carente não teve qualquer tipo de suporte oferecido pelo poder público. E é nesse contexto que se insere a Revolta da Vacina de 1904.

                Em 1910, outra revolta vai agitar a cidade do Rio de Janeiro. Os baixos soldos, as más condições de alimentação e os castigos físicos (como a chibata) imposto aos marinheiros negros, fizeram que os mesmos, liderados pelo marinheiro João Cândido (que ficou conhecido como o “Almirante negro”) tomassem dois navios e ameaçaram bombardear a capital do país, caso, as condições dos marinheiros não melhorassem e os castigos físicos não fossem abolidos. Estava em curso a Revolta da Chibata. O governo tentando impedir o pior promete atender as reivindicações desde que os marinheiros se entregassem. Acreditando na promessa governamental se entregaram. Os envolvidos foram presos e mortos. João Cândido sobrevive, mas é expulso da marinha. Mas os castigos físicos são abolidos da Marinha brasileira.

                Já na cidade de São Paulo irão ocorrer manifestações, uma social e outra cultural. Antes de iniciarmos a falar sobre o movimento operário, temos que lembrar que a base da economia brasileira no período é  agroexportadora baseada nas monoculturas, principalmente do café. Mas existiam indústrias, principalmente houve um crescimento durante a I Guerra Mundial (como já descrito e explicado no texto As estruturas econômicas no Brasil durante a República Oligárquica). O operariado brasileiro foi formado inicialmente por imigrantes italianos que não aceitaram a exploração do trabalho nas fazendas de café e migraram para a cidade de São Paulo. As conquistas trabalhistas já haviam ocorrido na Europa no decorrer do século XIX, então esse imigrante operário tinha uma consciência de classe, e as condições de trabalho no Brasil no inicio do século XX eram muito precárias com baixos salários, exaustivas jornadas de trabalho e nenhuma assistência social ou direito trabalhista. Já entre 1903 e 1906 vão ocorrer as primeiras e pequenas greves. O governo vai tratar a greve como subversão e vai expulsar os estrangeiros grevistas. Essa atitude do governo tem como consequência a primeira greve geral no Brasil em 1907. Mas podemos dizer que a greve geral de maior impacto aconteceu em 1917, onde o número de indústrias já era um pouco maior. As  más condições de trabalho e a repressão e violência imposta pelo governo provocavam profunda insatisfação nos operários, gerando mais manifestações. As notícias de uma Revolução Socialista na Rússia em 1917 ajudaram a difundir ideias socialistas, as quais o movimento operário brasileiro passa a defender. Em 1922, é fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB – o partido mais antigo do Brasil em atividade). Uma saída encontrada pelo governo e pelos industriais foi à contratação de operários  brasileiros advindos da zona rural (mesmo que sem experiência) estavam acostumados com o paternalismo dos coronéis e não tinham a mesma consciência de classe que os imigrantes italianos. Dessa forma, a burguesia incipiente brasileira e o governo conseguiram enfraquecer o movimento operário brasileiro já no seu nascedouro. Isso não quer dizer que o movimento não tenha crescido e se fortalecido, mas vai levar muito, muito mais tempo para se começar a ter as primeiras conquistas trabalhistas.

                No início da década de 20, mais precisamente em fevereiro de 1922, ocorreu na cidade de São Paulo a Semana de Arte Moderna. Esse movimento recusava os padrões estéticos europeus e valorização à cultura brasileira. Dividia-se em dois grupos: o Movimento Verde-Amarelo, mais conservadores e defensores das tradições; e o Movimento Antropofágico, que tinha um olhar mais crítico, liderados por Maria de Andrade, Oswaldo de Andrade e Tarsila do Amaral. Esse movimento foi importante, pois ele é um marco. A partir dele, a cultura brasileira passa a ser mais valorizada e, isso é importante para uma sociedade que se reconhecesse através da sua cultura.

                As revoltas no Rio de Janeiro e os movimentos sociais e culturais na cidade de São Paulo contribuíram para uma mudança de mentalidade da sociedade brasileira, mesmo que incipiente, já podemos notar nessas duas primeiras décadas de domínio oligárquico, que houveram reações e contestações  ao sistema imposto a sociedade. (FCA)

 

 

Comentários