OS CONFLITOS RURAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA


 OS CONFLITOS RURAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

Durante a República Velha (1889-1930) aconteceram algumas revoltas e movimentos sociais rurais que contestaram o próprio regime e, principalmente as condições de vida do homem do campo e a exploração do seu trabalho. As principais razões desses conflitos era a miséria do sertanejo, a exploração dos coronéis sobre o trabalho desses sertanejos e a ausência de políticas sociais do Estado em relação a essa condição de abandono do homem trabalhador no meio rural.

Destacamos aqui três exemplos: A Guerra de Canudos (1896-1897) na Bahia e  o Contestado (1912-1916) no sul do Brasil. Esses dois movimentos foram marcados por forte conotação religiosa, por isso, também, conhecidos como movimentos messiânicos. Além desses dois conflitos, destacamos também o movimento conhecido como Cangaço, marcado por extrema violência que ocorreu no nordeste brasileiro.

A Guerra de Canudos foi um conflito que ocorreu no Brasil entre 1896 e 1897, na região da Bahia (Arraial de Canudos ficava as margens do rio Vaza-Barris, uma fazenda abandonada), envolvendo o governo da República e os habitantes da comunidade de Canudos, liderados por Antônio Conselheiro. Este movimento surgiu em um contexto de grande desigualdade social e crise econômica, onde muitos nordestinos enfrentavam a pobreza e a seca. Antônio Conselheiro, um líder carismático e religioso, atraiu milhares de seguidores que buscavam uma vida melhor e um refúgio contra a opressão do governo. A comunidade de Canudos cresceu rapidamente, tornando-se um símbolo de resistência e esperança para muitos. Esse crescimento e a fama do Arraial levou muitos sertanejos a fugirem de suas fazendas para irem viver lá. Esse fato começou a desagradar os coronéis da região que começaram a pressionar o governo, que começou a ver Conselheiro como uma ameaça já que ele era a favor da volta da monarquia, configurando uma ameaça a ordem da recém criada República. Também a Igreja passou a se opor as falas de Antônio Conselheiro que se dia um enviado de Deus.

Em resposta, o governo enviou expedições militares para reprimir o movimento. A primeira expedição foi malsucedida, mas as tentativas seguintes foram mais organizadas e, em 1897, culminaram na destruição total de Canudos. O conflito resultou em milhares de mortes, tanto de soldados quanto de civis, e deixou um legado de dor e resistência na memória do povo nordestino. A Guerra de Canudos é frequentemente vista como um marco na história do Brasil, refletindo as tensões sociais e políticas da época, e é tema de estudos e obras literárias, como o famoso livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha, que analisa a complexidade do conflito e a vida no sertão nordestino.

A Guerra do Contestado foi um conflito que ocorreu entre 1912 e 1916, na região que hoje compreende os estados de Santa Catarina e Paraná, no Brasil. A região do Contestado era marcada por uma população de pequenos agricultores e posseiros que viviam de forma simples, mas que se viam ameaçados pela chegada de grandes empresas, especialmente a Companhia de Terras do Brasil, que tinha planos de exploração madeireira e de construção de uma ferrovia. A desapropriação de terras e a falta de compensação justa para os moradores geraram um clima de insatisfação e revolta. Além disso, a Guerra do Contestado também foi influenciada por questões religiosas. Um líder carismático, o monge José Maria, surgiu entre os camponeses, prometendo libertá-los da opressão e trazendo uma mensagem de esperança. Ele se tornou uma figura central na resistência contra as forças do governo e as empresas, galvanizando o apoio popular. O conflito se intensificou com a mobilização de tropas do governo para reprimir os revoltosos, resultando em batalhas sangrentas e em um grande número de mortes. A guerra se arrastou por vários anos, com os camponeses lutando bravamente, mas enfrentando a superioridade militar do governo.

O cangaço foi um fenômeno social e cultural que ocorreu principalmente no Nordeste do Brasil, entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Caracterizado por grupos armados, conhecidos como cangaceiros, que se dedicavam a atividades de banditismo, o cangaço surgiu em um contexto de desigualdade social, pobreza extrema e falta de oportunidades na região. Os cangaceiros, se rebelavam contra a opressão dos poderosos, como latifundiários e autoridades locais, e buscavam, de certa forma, uma forma de justiça social.  Além disso, muitos deles eram motivados por questões de honra, vingança e a busca por reconhecimento. O cangaço também refletia a luta pela sobrevivência em um ambiente hostil, onde a seca e a falta de recursos eram comuns. Embora o cangaço tenha sido marcado por violência e conflitos, ele também deixou um legado cultural, influenciando a música, a literatura e a identidade nordestina. Devido à situação de miséria, a ausência do Estado, muito estudiosos denominam esse movimento de “banditismo social”. Banditismo social é um termo que se refere à revoltas sociais de comunidades camponesas, que podem ser individuais ou coletivas. É um tema recorrente em sociedades com forte presença rural, que era o caso do Brasil no inicio do século XX. O termo foi desenvolvido pelo historiador britânico Eric Hobsbawn na década de 1960.É uma forma de protesto social contra a opressão do Estado e das elites, onde a população explorada vê nas ações, no caso em questão, o Cangaço, uma forma de resistência e passa a ver o infrator da lei como um bem feitor, cujo maior representante do banditismo social é o mito de Robin Hood que roubava dos ricos para dar aos pobres.

 O principal bando de cangaceiros que se tornou o mais poderoso e temido era liderado por Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), mais conhecido como Lampião, que assolou o nordeste brasileiro por décadas. Os cangaceiros foram perseguidos pela polícia volante e exterminados um a um. Eram os únicos que despertavam medo nos coronéis, justamente por não terem perspectiva de melhorar sua condição e, portanto não precisar temer o desrespeito das leis vigente. Somente na Era Vargas, o governo brasileiro conseguiu acabar com o movimento do Cangaço. No dia 28 de julho de 1938, na localidade de Angicos, no atual estado do Sergipe, Lampião foi apanhado em uma emboscada das autoridades, onde foi morto junto com sua mulher Maria Bonita, e mais nove cangaceiros. Até hoje se discute se Lampião foi um herói um bandido?

O que podemos dizer que todos esses movimentos descritos acima são resultados da miséria do homem do campo, da falta de perspectiva e de esperança das pessoas, do abando do Estado a condição dessas pessoas e pela exploração dos coronéis. Sem ver uma luz, só restava ao sertanejo lutar. E o resultado foi à intervenção do Estado contra essa população miserável, atendendo aos interesses das elites dominantes da época na manutenção de seus interesses e privilégios. Mas também é importante salientar que essas revoltas e movimentos demonstram uma reação da população, mesmo que seja uma parte dela, mesmo que não obtiveram sucesso, não aceitou pacificamente sua situação e, isso demonstra que o povo brasileiro, ao contrário do que se propaga não é tão pacifico assim e demonstrou as elites oligárquicas que o sistema não estava tão consolidado assim, poderia sofrer revés. (FCA)

 

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