OS IMPÉRIOS, OS ESTADOS UNIDOS E A CHINA


OS IMPÉRIOS,  OS ESTADOS UNIDOS E A CHINA

Texto Prof. Fabrício Colombo de Aguiar

            A história da humanidade é marcada pelo surgimento, ascensão e queda de impérios. Normalmente um Império é constituído por um vasto território, onde uma cultura dominante exerce o poder político, econômico e cultural sobre esse território, que muitas vezes é formado por uma diversidade de povos e culturas. Determinar qual foi o império mais influente da história é algo complexo, pois essa influência pode ser medida de várias formas: duração, extensão territorial, impacto cultural, estrutura política, avanço tecnológico, entre outros.

Mas sem dúvida, os Impérios Romano na Antiguidade e o Império Britânico na modernidade são os dois impérios que proporcionaram um maior impacto, digamos de forma globalizada. Cabe salientar que apesar de ter um impacto global, essas influências são muito mais perceptíveis na cultura ocidental. O Império Romano estabeleceu as bases do direito ocidental, da administração pública, a engenharia, a arquitetura e as artes que moldam as sociedades contemporâneas ocidentais até hoje. Do latim (idioma oficial do Império Romano) se originaram línguas modernas, como o português, espanhol, francês, italiano, etc. O cristianismo, religião que se tornou dominante entre os romanos e depois imposta a todos os povos dominados por ele moldaram a cultura e o pensamento europeu e, por consequência dos demais continentes dominados por esses. Depois de mais de cinco séculos de duração o Império Romano do Ocidente caiu, mas continuou existindo até o século XV na sua versão Oriental e através da Igreja Católica na sua porção ocidental, consolidando-se como o império mais duradouro da história.

O Império Britânico que se estende temporalmente do século XVI ao XX. Teve seu auge nos séculos XVIII e XIX e, consolidou-se como o maior império territorial que o mundo já viu, abrangendo um quarto da superfície do planeta, conhecido como o Império onde “o sol nunca se põe”. Os britânicos são responsáveis pela difusão da língua inglesa, praticamente adotado como um idioma global para a comunicação entre os diferentes povos, o sistema parlamentar e do sistema capitalista. Após as duas guerras mundiais na primeira metade do século XX e o processo de descolonização na segunda metade do mesmo século o Império Britânico se desfez.

Após a I Guerra Mundial (1914-1918), que na verdade foi muito mais uma guerra europeia do que propriamente global, os Estados Unidos da América que no século anterior já havia consolidado sua hegemonia sobre todo o continente americano, surge no cenário mundial como uma nova potência, que se tornará mais forte ainda após a II Guerra Mundial (1939-1945) dividindo o poder global com a União Soviética, num período conhecido como Guerra Fria que caracterizava a ordem mundial bipolar, onde estes dois países eram denominados de superpotências. Com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, a partir da década de 90 do século XX muitos especialistas estipularam o nascimento de uma nova ordem mundial denominada de unipolar, onde só existiria uma potência a nível global: os Estados Unidos da América.

Durante todo o século XX, os Estados Unidos impôs sua cultura e seu modo de ver o mundo, transformando o dólar em moeda para as transações internacionais, fortalecendo dessa forma sua moeda e sua economia. Com o desaparecimento da União Soviética estava consolidado o Império Americano. Porém, um pouco mais de 100 anos do surgimento dos Estados Unidos como potência mundial, este império começa a apresentar fissuras, contrariando a ideia de que ele seria mais duradouro. A partir do século XXI podemos destacar vários motivos para o início do declínio desse grande império.

Começando por sua economia, que ainda é a maior do mundo, mas se nada acontecer de diferente do que vem acontecendo está prestes a ser ultrapassada pela China, que se tornaria a maior economia do mundo. Existe também o crescimento da Índia, a própria Europa que através da consolidação do bloco conhecido como União Europeia tenta depender menos dos Estados Unidos. Estes impõem uma concorrência a economia estadunidense. A dívida pública interna dos Estados Unidos é colossal e pode limitar a capacidade do país de investir em infraestrutura e inovação a longo prazo, perdendo dessa forma competitividade no cenário mundial. A perda de empregos industriais para países com mão de obra mais barata tem impactado na economia interna do país que por consequência aumentam as questões sociais, a crescente desigualdade de renda e distribuição da riqueza tem gerado tensões sociais (questão da migração é um exemplo). A questão da falta de uma política pública para a saúde tem afetado grande parte da população que não consegue mais arcar com os planos e os seguros de saúde, aumentando a insatisfação dos menos favorecidos. Todas essas questões sociais acabam gerando tensões políticas que culminaram nos últimos anos com uma forte polarização no país entre democratas e republicanos dificultando a governabilidade e a capacidade de tomar decisões estratégicas a longo prazo. Todo esse cenário provoca uma grande instabilidade interna, o que pode levar a uma forte crise de dentro pra fora, podendo ter como consequência uma ruptura do sistema democrático, a incapacidade de governar e a falência econômica do modelo estadunidense.

Fatores externos também estão contribuindo para o enfraquecimento global deste grande império. A política belicosa e a ideia propagada de se colocar como a “polícia do mundo” tem um custo econômico muito alto e, essa política tem sido cada vez mais questionada dentro do próprio país. Afinal os bilhões de dólares gastos para manter todo esse aparato militar poderia ser usado em prol da sociedade estadunidense. Com o advento da globalização, não só econômica mas também cultural, a comunicação imediata das informações pelas redes sociais tem diminuído o monopólio cultural dos Estados Unidos, bem como a propagação das noticias de racismo, xenofobia e a violência armada prejudicam a imagem do pais. As recentes decisões de retirar o país de acordos internacionais, como o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, da OMS (Organização Mundial da Saúde) e dos Direitos Humanos geram críticas a liderança americana. Também a sua atual política por ações unilaterais em vez de cooperações multilaterais podem isolar os Estados Unidos no cenário mundial.

Mas como eu disse no inicio do texto, impérios surgem, crescem e acabam ruindo. No cenário mundial está surgindo uma nova potência, que noutro hora já foi um grande império, mas com influência limitada ao seu espaço geográfico. Estamos nos referindo a China que tem se posicionado como uma alternativa ao modelo ocidental liderado pelos Estados Unidos , oferendo investimentos, infraestrutura, tecnologia e parcerias econômicas sem as condições políticas e imperialistas impostas pelos Estados Unidos. Cabe aqui ressaltar que não é uma questão de Estados Unidos ruim e China boazinha. É evidente que a China está defendendo seus interesses no campo geopolítico mundial tentando se tornar o Império predominante da vez.

A crise e posterior queda do “Império Americano” não é um evento único nem isolado, ele é um processo gradual que sofre impactos internos e externos. Os Estados Unidos ainda são a maior potência do mundo, tanto militar, quanto econômica e cultural. Mas a perda de  influência e poder  global está diminuindo é evidente como visto nas questões abordadas. Agora, se a China será a nova potência mundial (e está caminhando para isso) ou os Estados Unidos terão a capacidade de se adaptar a nova ordem mundial que se configura muito mais multipolarizada, resolver suas questões internas para continuar exercendo sua hegemonia, só o tempo dirá. O que é certo é que um dia esse império vai ruir. Se vai ser nas próximas décadas do século XXI ou no próximo século, como diz o ditado “quem viver verá”. (FCA)


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