BRASIL: O NASCIMENTO DA REPÚBLICA
O
surgimento da República no Brasil em 1889, mais precisamente com sua
proclamação no dia 15 de novembro é um resultado da insatisfação da elite
agrária da época com a abolição da escravatura um ano antes, do Exército, que
não se sentia valorizado pelo governo imperial e da crise criada pelo imperador
D. Pedro II com a Igreja Católica. Justamente os setores de sustentação do
Império. Em nenhum momento a mudança do regime monárquico para o republicano é
resultado de um movimento popular ou mesmo, de um movimento que envolvesse
grande parte da sociedade brasileira. A própria proclamação da República no dia
15 de novembro efetivada pelo marechal Deodoro da Fonseca, está muito mais
próximo de um ato administrativo-político do que o resultado de uma revolta.
Assim escreveu Aristides Lobo: “O povo assistiu aquilo bestializado, atônito,
surpreso, sem saber o que significava. Muitos acreditavam estar vendo uma
parada”.
Por
isso, nos primeiros anos republicanos houve um consenso entre as elites,
principalmente devido ao medo de um retorno à Monarquia, em que o governo
deveria ficar nas mãos dos militares através de um governo provisório. Dessa
forma, o poder foi dado ao Marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente
republicano de nossa história. Esse período em que o Brasil foi governado por
presidentes militares no inicio do período republicano é conhecido como a
República da Espada (1889-1894). Podemos dizer que nesse período nasce a
interferência a participação dos militares na política brasileira. Não que isso
não ocorresse no período imperial, mas é no período republicano que essa
participação militar toma forma.
O
governo provisório de Deodoro enfrentou alguns problemas iniciais, como a falta
de apoio da Marinha que era ligada a Monarquia e a falta de diálogo do
presidente com a elite agrária do país, principalmente com os cafeicultores. O
presidente também era visto como uma pessoa muito autoritária. Mesmo assim, o
governo republicano implementou algumas ações como as eleições presidenciais
e para Assembleia Constituinte para a
elaboração na nossa primeira Constituição republicana e a segunda de nossa
história. Promoveu o banimento da família real do território nacional;
determinou a laicidade do Estado, ou seja, o Estado brasileiro não tinha mais
uma religião oficial, o que permitiu o livre culto religioso no país. Nas
eleições presidenciais Deodoro da Fonseca foi eleito presidente, tendo como
vice outro marechal, Floriano Peixoto.
Na
Assembleia Constituinte havia a proposta de dois modelos republicanos. Um
baseado no modelo estadunidense mais liberal que defendia as liberdades
individuais, a livre concorrência, a descentralização política com forte
autonomia para os estados. Esse modelo era defendido principalmente pela elite
cafeeira. Do outro lado tínhamos um modelo positivista, baseado nas ideias de
Augusto Conte que defendia um Estado forte, centralizado, baseado no lema
“Ordem e Progresso”. Ao olhar para nossa bandeira já podemos deduzir qual
modelo saiu vitorioso. Assim, nossa primeira Constituição republicana definiu o
Brasil como uma República Federativa, porém de governo centralizado, divisão
tripartida dos poderes e o voto universal masculino não secreto e, excluía
menores de 21 anos, mulheres, padres, analfabetos e mendigos; portanto se
tratava de uma democracia bem limitada; a qual excluía praticamente 80% da
população da época.
Não
demorou muito para o governo de Deodoro entrar em crise pois a relação com o
Congresso que representava os cafeicultores não era nada boa. As elites criticavam principalmente os
problemas derivados da política do encilhamento. Essa foi uma medida econômica
efetivada pelo ministro da fazenda Rui Barbosa (1849-1923), que assim como o presidente
era positivista. Essa política incentivava a industrialização, que era um
interesse contrário a elite agrária do país. Mas a falta de recursos e a
demanda por moeda dificulta esse processo. O governo tentando solucionar o
problema aumenta a emissão de papel moeda e medidas protecionistas para
proteger as indústrias. Mas a falta de fiscalização pra quem ia os incentivos
gerou muita especulação financeira e, o aumento da emissão de papel moeda gerou
inflação elevada, quebrando as indústrias e gerando desemprego. A chamada crise
do encilhamento. Uma crise econômica marcada por uma forte inflação e pela
formação de uma bolha de crédito (bolha econômica), desencadeando então uma
crise financeira e institucional.
A
crise leva a renuncia de Deodoro da Fonseca. O marechal Floriano Peixoto assumi
a presidência em seu lugar, fecha o Congresso, decreta estado de sítio e mandar
prender opositores políticos. É o primeiro golpe de Estado da nossa República,
isso porque segundo a Constituição em caso de ausência do presidente por morte,
doença ou renúncia em menos de um ano de mandato, novas eleições deveriam ser
marcadas. Deodoro da Fonseca renuncia com 11 meses de governo após a eleição de
1891, portanto, novas eleições deveriam ter sido convocadas, o que não ocorreu.
Floriano
consegue conciliar as forças politicas opostas, conseguindo apoio dos radicais, positivistas e da elite agrária,
com isso ele suspende o Estado de sítio e permite a volta do Congresso. Também
faz um pacote com medidas populares como construção de casas para a população
de baixa renda o que faz sua popularidade aumentar bastante na capital do país
Rio de Janeiro. Apesar disso, Peixoto enfrenta duas revoltas no seu governo: A
Revolta da Marinha (1893-1894) e a Revolta Federalista no Rio Grande do Sul
(1892-1894). Sufocando as duas revoltas, Floriano consegue terminar seu mandato
entregando o cargo em 1894 para Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil
do Brasil.
Como
resultado desse período, na denominada República da Espada vai se consolidar no
Brasil a política paternalista. Essa prática política passa a ideia para a população de que o líder é um pai e cabe a ele
a responsabilidade de prover as necessidades do povo. Porém, essa política
paternalista que tem como base a responsabilidade do Estado do desenvolvimento
individual do cidadão acaba por alienar e limitar esse cidadão que quase sempre
fica refém das políticas assistencialistas do Estado. Nesse sentido, se forma uma
sociedade dependente dos “favores” do Estado limitando a sua capacidade de ser
autônoma e crítica. O paternalismo ainda é uma prática bem comum na nossa política
nos dias de hoje. (FCA)
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