UM PAÍS DE
IMIGRANTES CONTRA A IMIGRAÇÃO: UMA ABORDAGEM DA IMIGRAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS
Ao assumir a presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2025, Donald Trump editou oito decretos que restringem a imigração no país, entre eles o uso do Exército na segurança das fronteiras (leia-se fronteira com o México), a deportação de imigrantes, suspensão do programa de refugiados, restrição a cidadania (filhos de imigrantes nascidos no país), entre outras. Para um país que foi forjado por imigrantes é bem contraditório, mas nem sempre foi assim.
O
processo imigratório nos Estados Unidos tem uma longa e complexa história,
moldada por fatores econômicos, sociais, políticos e culturais. Desde o período
colonial até os dias atuais, a imigração tem sido uma das principais
características do país, contribuindo para sua diversidade e crescimento.
A
imigração para os Estados Unidos se inicia obviamente com o inicio do processo
colonial promovido pelos britânicos. Nesse primeiro momento, principalmente
ingleses e escoceses fugindo das perseguições religiosas via nas terras do “novo
mundo” oportunidades econômicas e a fuga dos conflitos europeus. Logo após a
chegada dos britânicos, vieram os holandeses (fundadores do que é hoje a cidade
de Nova York), franceses e espanhóis. Também ainda durante o período colonial a
imigração africana foi bastante significativa, principalmente no contexto da
escravidão, com milhares de africanos trazidos a força para trabalhar nas
plantações do sul. Lembrando que o modelo econômico nas colônias do sul foi o
agroexportador, monocultor e escravistas; ao contrario do norte que implementou um sistema de pequenas propriedades policultoras, o que no futuro facilitou o
desenvolvimento comercial e industrial dessa região.
Após
a independência e no decorrer do século XIX, a imigração para o país aumentou
consideravelmente devido a expansão territorial e a industrialização que criava
uma demanda de mão-de-obra. Nesse períodos irlandeses, suecos, alemães,
italianos e poloneses se destacaram. Esse período também foi marcado pela
chegada de chineses, onde serviram de mão de obra para a construção da Ferrovia
Transcontinental (que ligava o Atlântico ao Pacífico). Durante esse período a
imigração era aberta com pouco controle e regulamentações, pois o país se
beneficiava da mão de obra barata e das habilidades trazidas pelos imigrantes.
Entretanto, com o crescente número de imigrantes, começaram a surgir
preocupações sobre a assimilação dos novos chegados e o impacto da imigração
nas condições sociais e econômicas do país. Isso levou à implementação de leis
restritivas, como a Chinese Exclusion Act
de 1882, que proibiu a imigração de chineses, e a Immigration
Act de 1924, que estabeleceu cotas rígidas para a imigração, com
preferência por imigrantes do norte e oeste da Europa. A ideia de
"Americanização" se tornou um objetivo do governo, que queria garantir
que os imigrantes se integrassem aos valores e à cultura dos EUA.
Após
a II Guerra Mundial a necessidade de mão de obra e de recuperar a economia fez
que o governo estadunidense repensasse as restrições a imigração,
principalmente referente a questão das nacionalidades. Nesse sentido o Immigration and Nationality Act de
1965, também conhecido como Hart-Celler Act,
foi um marco importante, pois ele aboliu as cotas baseadas na nacionalidade e
estabeleceu um sistema que priorizava a reunificação familiar e a imigração de
profissionais qualificados. Esse ato contribuiu para um aumento significativo de
imigrantes para o país como asiáticos,
africanos e principalmente latino-americanos.
No
final do século XX, a imigração começou a ser um tema central da politica
estadunidense, principalmente devido ao crescimento da imigração ilegal essencialmente
advindas do México e da América Central. O governo americano implementou várias
políticas para tentar controlar o fluxo de imigrantes, incluindo a construção
de muros na fronteira e o fortalecimento da fiscalização. Em 1986, o Immigration Reform and Control Act
(IRCA) concedeu anistia a milhões de imigrantes ilegais que estavam nos EUA
antes de 1982, mas também impôs penalidades a empregadores que contratassem
imigrantes ilegais.
No
século XXI, o debate a cerca da imigração se intensificou ainda mais devido ao
grande aumento de imigrantes ilegais, imigrantes que chegaram crianças no país,
mas não possuem documentos americanos, políticas de deportação e até mesmo o
decreto de Trump de não conceder cidadania estadunidense aos filhos de
imigrantes nascidos no país, o que viola a própria Constituição do país que
garante a cidadania aos nascidos em solo estadunidense.
A
questão da imigração está longe de ser resolvida nos Estados Unidos que atrai
esses imigrantes vendendo a ideia do “sonho americano” (que é muito questionável,
mas esse tema ficará para um outro texto). O tema central é que esse país é o
resultado justamente do processo de imigração. O que Trump quer é assegurar uma
imigração “branca” que na visão dele não afete a “americanização” do país.
Assim, asiáticos, africanos e latino-americanos (inclusive brasileiros) não
serão bem vindos. Mas ao mesmo tempo são esses imigrantes que garantem o
funcionamento de diversos setores econômicos aos quais os próprios
estadunidenses não querem se dedicar justamente por pagarem pouco. Temos que
lembrar que grande parte dos Estados Unidos, entre eles Califórnia, Nevada,
Texas, Utah, Arizona, Colorado e Wyoming foram anexados ao país depois da
Guerra Mexicana-Americana de 1846. Portanto, esses estados tem na sua origem
uma cultura hispânica (latina), a mesma cultura depreciada por Trump.
Enfim,
é inegável que a imigração foi fundamental na formação e evolução dos Estados Unidos.
A imigração ajudou a construir uma nação diversa e dinâmica, mas também gerou
desafios e debates políticos contínuos. A história da imigração estadunidense é
marcada por momentos de abertura e restrição, refletindo as tensões e as mudanças
na sociedade e na economia dos Estados Unidos. É o que vemos hoje, pois na
visão do governo atual os imigrantes são
prejudiciais a economia do país. É direito de um país aceitar ou não
estrangeiros, mas também é dever de um país tratar com dignidade o ser humano,
que seus diretitos universais sejam respeitados e é isso que não estamos
percebendo nas ações do atual governo estadunidense. (FCA)

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